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Mulheres que representam o Brasil, a Bolívia e a China

Data de publicação: 30/03/2018


Durante o INTERCONGREPICS, que ocorreu na segunda semana de março, várias pesquisas foram apresentadas. Conheça o trabalho de três pesquisadoras


Pesquisas significativas na área da medicina integrativa foram apresentadas no 1º Congresso Internacional de Práticas Integrativas e Complementares e Saúde Pública (INTERCONGREPICS), que aconteceu no Rio de Janeiro, de 12 a 15 de março. No mês em que se comemora o dia internacional da mulher, conheça um pouco do trabalho desenvolvido por Andrea Watanabe, Teng Zengjie e Vivian Camacho.
 
As histórias das pesquisadores abaixo representam as mulheres que participaram do Congresso, mulheres que lutam por um espaço no mundo da ciência e mulheres que buscam ampliar os cuidados para além da medicina convencional.
 
Tradição popular
“Pertenço à nação Quechua e sou médica cirurgiã. Terminei o curso de medicina na Bélgica. Tive uma formação acadêmica ocidental, dominante, hegemônica, com uma doutrina de alienação do serviço, que todo mundo tem. Antes de voltar para o meu país, Bolívia, passei por uma crise importante, uma crise epistemológica”, lembra Vivian Camacho, OMS.
 
A crise era resultado do confronto entre duas realidades: o acesso às várias tecnologias que tinha alcance no país estrangeiro e a falta de recursos que lhe aguardava na terra natal. Além de se questionar do que teria adiantado estudar tanto para retornar e não ter a infraestrutura belga, a médica boliviana se deparou com a perda da humanidade dos colegas.
 
Segundo Vivian, a taxa de suicídio é muito alta entre crianças e adolescentes na Bélgica. O abandono da terceira idade também é evidente. “É um país rico, com muitos recursos, com saúde e educação, mas o que estava acontecendo com o lado humano? Comecei a questionar a prática médica. Estudei tanto mas não estava feliz. Ao retornar para a Bolívia,  voltei meus sóis para meu povo”, conta. Ao buscar suas raízes, uniu o exercício médico ao saber das parteiras dos ancestrais. “Sou médica de profissão, mas parteira de coração”, afirma.
 
De 2012 a 2017, na região andina, fez parte do Conselho Mundial pela saúde dos Povos. Também foi  diretora geral de Medicina Tradicional e Intercultural do MInistério da Saúde na Bolívia, durante o ano de 2016. Vivian Camacho trabalha com movimentos sociais, especialmente com mulheres, para sanar a violência com por meio das medicinas tradicionais. No mestrado, a dissertação é sobre Agroecologia e Cultura endógena em desenvolvimento na América Latina, um estudo que mostra a retomada dos saberes do campo para a área da saúde.

Para Camacho, o pensar e fazer saúde deve analisar a relação do indivíduo com a comunidade, com a terra. “Tive oportunidade de estudar em uma boa universidade, mas não me esqueci de onde vinha. Não esqueci dos cuidados que minhas avós tinham comigo quando criança. Há momentos que é necessário hospital, mas existem outros contextos e diferentes formas de agir. Para integrar as diferentes medicinas que existem é necessário respeito pelo o conhecimento do outro”, revela.
 
Alimentação saudável como tratamento
A síndrome nefrótica ocorre em cerca de uma a sete crianças para cada 100 mil pacientes. A incidência é baixa, porém é a segunda causa mais comum a levar a criança a ter insuficiência renal crônica, necessitando de diálise e transplante. Quando o paciente pediátrico precisa de transplante, em um terço deles, a doença original volta ao rim transplantado. Para os tratamentos convencionais, é uma enfermidade bastante emblemática e desafiadora.
 
A doença causa inchaço no corpo, edema, redução da urina e da diurese, elevação de proteínas na urina, mas baixos níveis no sangue. Também são verificados altas taxas de colesterol e triglicérides. O tratamento convencional é feito com esteróide. Quando o paciente não reage ao remédio, são inseridas outras medicações. Em 15 e 20% dos casos de síndrome nefrótica, não respondem a nenhum medicamento.
 
Embora uma pequena porcentagem dos pacientes passem por dificuldades no tratamento, a médica Andrea Watanabe, coordenadora da Unidade de Nefrologia Pediátrica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), começou um estudo diferenciado para essas crianças, há cerca de dois anos e meio, ao ler um artigo científico que dizia que restrição de glúten e derivados do leite poderia ter efeitos no tratamento da síndrome nefrótica.
 
“Iniciamos um estudo com uma abordagem diferenciada, com foco na alimentação, com pacientes que não respondiam aos esteróides. O objetivo é que com o desenvolvimento da pesquisa possamos estender o protocolo, uma vez que já evidenciamos resultados positivos, até mesmo às crianças que respondem ao tratamento convencional para reduzir os efeitos do medicamento no organismo”, explica Watanabe.
 
Foram convidadas crianças com síndrome nefrótica de difícil tratamento a participar do estudo, sem alteração das dosagens da medicação. “Os pacientes ficaram quatro semanas no resort na Disney para fazer a dieta sem glúten e sem o leite, observando os princípios da dieta saudável, que é o principal. Não tinham contato com alimentos processados, orgânicos de fontes desconhecidas. A dieta tinha restrição de sal”, explica. Das 19 crianças apenas três pacientes responderam parcialmente ao tratamento durante o estudo. Além disso, grande parte delas reduziu a pressão arterial e os medicações anti hipertensivas.
 
A pesquisa está sendo finalizada. Um capítulo do estudo já foi aceito para publicação em revista médica importante, da área renal. “Estamos esperando os resultados da avaliação genética, imunológica e microbiota intestinal. Queremos entender melhor o porquê que eventualmente alguém responde bem a dieta para aplicarmos essa estratégia alimentar mais especificamente”, conta a médica.     
 
O trabalho foi feito em conjunto com os médicos Leonardo Riella e Alessio Fasano, do Boston Massachusetts Hospital, e financiado por iniciativa pessoal e privada de um empresário. Segundo Andrea Watanabe, as pesquisas nas práticas integrativas está crescendo bastante. “Existe uma dificuldade de financiar esse tipo de pesquisa, que fuja da lógica alopática, o que acaba impactando negativamente no desenvolvimento da área. Tem o peso da indústria farmacêutica e alimentícia que não vai enfatizar tanto pesquisas como essa”, afirma.
 
Conhecimento milenar
A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) é a denominação dada ao conjunto de práticas de cuidado milenares na China. No Brasil, apesar da Acupuntura ser a mais conhecida do escopo de métodos, há também Fitoterapia chinesa,Tuina ou Tui Ná, Dietoterapia, Auriculoterapia, Moxabustão, Ventosaterapia e Práticas corporais — exercícios integrados com respiração, circulação de energia e meditação, como Chi Kung, Tai Chi Chuan, entre outros.
 
Com o surto da Síndrome Respiratória Aguda (SARS), em 2003, o Instituto Nacional de Microbiologia e Epidemiologia da Academia de Ciências Médicas Militares, na China, confirmou que uma antiga fórmula da MTC, Lian Hua Qing Wen Jiao Nang, poderia inibir significativamente o vírus que causam SARS.
 
Em 2004, a doutora Teng Zengjie participou do ensaio clínico randomizado duplo-cego, multicêntrico e trifásico que comprovou a eficácia da fórmula no tratamento da gripe. O medicamento, feito de 13 componentes naturais, como Herba Rhodiola — planta medicinal rara —, inibe o vírus Influenza A3, vírus Parainfluenza tipo I, vírus respiratório Sincicial, adenovírus e vírus herpes simplex.
 
A pesquisa realizada pela médica chinesa foi apresentada no INTERCONGREPICS. O resultados mostraram que Lian Hua Qing Wen Jiao Nang reduz a febre e alivia a dor. A observação clínica mostrou que a taxa efetiva de redução da febre foi de 90,2% e a de dor no corpo foi de 91%. A fórmula é antibacteriana, anti inflamatória, previne e trata inflamação pulmonar, inibe o Staphylococcus aureus, Estreptococo hemolítico, pneumococo e outras bactérias.
 
“O Congresso é importante para a divulgação da Medicina Tradicional Chinesa, principalmente para aproximar culturas tão diferentes. O brasileiro ainda não compreende bem a medicina chinesa. Por exemplo, o tratamento busca estabilizar o corpo para que ele mesmo combata os agentes externos ao organismo”, conta Teng. A pesquisadora conta que o medicamento combate o vírus e, quando isso acontece, fortalece as defesas do corpo, além de diminuir todos os sintomas. A formula tradicional está sendo amplamente utilizada contra gripe na China desde 2004, após os resultados do estudo e regulamentação. A fórmula também está sendo usada nos Estados Unidos.
 
A apresentação de Teng Zengjie feita no Congresso Internacional das PICS trouxe uma das contribuições mais emblemáticas da MTC para a medicina. Nas décadas de 1950 e 1960, oPlasmodium, parasita que causa a malária, tornou-se resistente aos medicamentos existentes. Em 1969, Tu Yo-yo, pesquisadora da China Academy of Chinese Medical Sciences, começou um estudo para desenvolver um novo tipo de medicamento antimalárico. A cientista pesquisou em antigos livros médicos da Medicina Tradicional Chinesa e encontrou no “Manual de Prescrições para Emergências", escrito por Ge Hong, um médico da Dinastia Jin Oriental (A.D. 317-420), que folhas de suco Artemisia apiacea foram eficazes na cura da malária.
 
Depois de alguns experimentos, Tu Yo-yo descobriu que o extrato de Artemísia apiaceaobteve 100% de inibição do plasmodium. O medicamento ficou conhecido como Artemisinina. Por causa da descoberta, a médica foi premiada com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina.